Todos os Caminhos

Todos os Caminhos
Clara Pinto Correia

quinta-feira, 19 de março de 2015

ROSEBUD- DeMOURA

26. ROSEBUD
 As novas gerações na sua maioria não conhecerão O Mundo a seus Pés (1941), em alguns países intitulado Cidadão Kane, do jovem realizador e ator Orson Welles, um filme corajoso, inovador, que desrespeitava a narrativa cronológica e as técnicas cinematográficas de então, um marco na história do cinema, hoje considerado um filme de culto. Se não viram, ou não se lembram, permitam-me recordar o enredo.
 Na hora da morte, o magnata da imprensa norte-americano Charles Foster Kane (um magnífico desempenho de Welles) pronuncia uma última e enigmática palavra: Rosebud. Um jovem jornalista resolve pesquisar no passado obscuro de Kane o que ela poderá significar. Na realidade, o filme retrata o real dono de uma grande cadeia de jornais muito contestado, William Randolf Hearst, que tentou impugnar a exibição, felizmente que sem êxito. Finalmente, Rosebud é apenas um trenó pertença de Kane quando garoto e que nos seus momentos derradeiros recorda-o a ser consumido pelas chamas.
 Se eu tivesse sido um mediático, influente e contestado editor, e ao morrer proferisse uma só palavra, também enigmática, seria: Cabeda. E se por acaso algum jovem e esforçado jornalista tentasse descobrir o que significava, ficaria espantado ao saber que é uma pequena e insignificante aldeia da Estremadura, a meia dúzia de quilómetros de Sobral de Monte Agraço, a cerca de cem de Lisboa.
 Cabeda foi o meu shangri-lá quando era um miúdo, entre os sete e os treze anos. Meu tio António (casado com uma irmã da minha mãe) era meeiro há muitos anos de uma quinta de boa extensão (talvez uns 50 hectares, imagino eu agora) e de boa terra mas com muita pedra. Era sobranceira à aldeia e a água da fonte e do bebedouro, e do lavadouro público, emanava da nascente que alimentava a grande horta do meu tio, a sua principal receita regular, e da qual saíam semanalmente alguns camiões totalmente carregados de legumes dos mais variados, desde o feijão-verde ao agrião, da cebolinha à couve portuguesa, rabanetes, favas e ervilhas.
 Não, não era esta atividade hortícola que me encantava, mas não deixava de ir por lá para arrancar alguma cenoura da terra e comê-la, ou mirar com curiosidade as moças na sua tarefa, e para ouvir o seu canto aberto e alegre, de que gostava. Tão pouco deixava de apurar os ouvidos para as conversas entre elas que eu achava algo ‘picantes’.
 O que me encantava eram os campos de trigo, em especial depois de ceifado, por onde corriam coelhos e lebres, as muitas árvores de fruta das quais colhia as madurinhas, os vastos vinhedos, os muros de pedra solta, a vastidão, os pássaros e borboletas, sapos, rãs e lagartixas que eu perseguia de brincadeira. Nascido e criado em Campo de Ourique, aquele ‘mundo’, aquela vastidão, aquele isolamento, dava-me uma sensação de liberdade. Descobertas e aventuras até então inimagináveis para mim, eram um grande atrativo.
 Os meus pais tinham uma casa arrendada ao ano, na Parede, durante uns 4 ou 5 anos, dos meus 7 aos 11. Contudo, a família toda viajava nas férias grandes, todinha, com gato, canários, papagaio, empregada, no dia 1 de julho para regressar no dia 31 de agosto, impreterivelmente. Durante o resto do ano só lá ia alguém fazer vistoria e limpeza. Apesar de a linha de comboios ser a mesma de hoje, sem muita diferença, e da estação à casa serem poucos minutos, nesse tempo a Parede eram poucas casas em volta da estação e campos, onde eu e os meus três irmãos diabolávamos. Fora do período ‘oficial’ de férias na Parede, no resto do verão e nas mini-férias, como o Carnaval e Páscoa, eu gostava de ir para a ‘quinta’, muitas vezes sozinho, nem com algum dos meus irmãos. O meu pai ou alguém deixava-me na ‘camioneta de carreira’ (era assim mesmo que se dizia) que ia pela Nacional 115 e me largava perto de Cabeda, não sei avaliar a distância, talvez um ou dois quilómetros, sei que uma parte era de ladeira, que enfrentava bem. Por vezes ia por um caminho entre muros de pedras, chão com bastantes lajes, que a lenda popular dizia ser romano.
 A minha felicidade começava ali. À minha espera, rabo a abanar com alegria, a ‘minha’ cadela Lisboa lá estava. Fielmente, nunca falhava. Como? Ninguém sabia explicar, mas quando ela desaparecia à hora da ‘carreira’, a minha tia proferia: “O Mário vem aí!” Eu subia a tal ladeira, passava ao lado da aldeia e alcançava o casarão, que apesar de rente ao caminho não tinha janelas para este e era construída a um nível pouco mais abaixo.
 Ao passar o portão entrávamos numa varanda larga, em pedra, que ladeada os três lados da casa, toda coberta de uma parreira densa de uva de mesa. Dela avistava-se uma paisagem ampla, donde se via boa parte da quinta e, a perder de vista, colinas graciosamente onduladas, com pastos, campos de cultura e pinheirais e, claro, muros de pedra solta demarcando áreas ou propriedades ou caminhos. Ainda hoje consigo fechar os olhos e revê-la, com os seus verdes e castanhos fortes, pequenos fiapos de neblinas mas, predominante, o azul do céu e o manto prata da luz solar. Por vezes, aqui ou acolá, discretas fumaças de alguma chaminé de casa isolada.
 Como disse, da varanda avistavam-se grandes pinheirais nas colinas distantes. Num final de tarde abrasadora aconteceu um pavoroso incêndio num desses pinheirais. Correram homens e mulheres de todas as aldeias em volta para atacar o fogo durante muitas e muitas horas. Já a noite chegara e o fogo ainda não fora dominado. O problema é que não havia água nas proximidades (eu conhecia bem o pinheiral) e o combate era com machados, pás, enxadas… e ramos de árvores. Julgo que o carro-tanque dos Bombeiros Voluntários (de Monte Agraço) não tinha condições de se aproximar muito.
 Da varanda eu olhava abismado como tantos não conseguiam debelar o incêndio e, ao mesmo tempo, surpreendia-me com o espetáculo dantesco, feérico e maravilhoso que admirava confrangido, à distância, sem poder aquilatar o desastre que representava para os donos do pinheiral e o perigo para quem lá estava, naquela luta insana contra as chamas. Além do mais, a minha preocupação era grande porque o meu tio evidentemente que para lá tinha corrido, seguido pelo seu fiel perdigueiro que além das caçadas sempre o acompanhava. Eu gostava muito de ambos e temia o que lhes poderia acontecer. Ao longe só se viam os vultos a correr desesperadamente de um lado para o outro, não se distinguiam os rostos. À noite eram sombras opacas que lembrariam um Teatro de Sombras se não fossem as labaredas por vezes a agigantarem-se afastando para longe os atacantes.
 Há bem pouco tempo tive a oportunidade e o prazer de ler uma obra de António Manuel Venda, Uma Noite com o Fogo, em que ele descreve, com o rigor e a beleza que lhe são peculiares, um incêndio em que ele e o irmão lutam para dominar num pinheiral próprio, na Serra de Monchique. Ao ler aquele belo texto, o pinheiral em chamas que vi em miúdo daquela varanda voltou avassaladoramente à minha memória, com toda a nitidez e grandiosidade. Só então pude realmente aquilatar a tragédia humana, além de ecológica e económica, que representa uma floresta em chamas, que por vezes vemos tão distraidamente nos ecrãs.
 Na casa não havia água canalizada, ela era transportada em grandes recipientes de latão para a cozinha e os banhos. Como eu recordo os banhos numa imensa bacia de latão, e o cheiro da água do banho ao ser despejada sobre a terra fora da varanda! Tão pouco havia eletricidade, além das velas, as candeias a petróleo ou uns candeeiros alimentados por uma pedra que, colocada na água, alimentava a chama, mas soltava um cheiro estranho. Na cozinha dominava uma espécie de lareira em pedra, majestosa, que albergava o fogão a lenha e onde se penduravam chaleiras com água e panelas com sopa. Era o reino da Luiza, que além disso comandava as mulheres na horta. Uma vida de tanto trabalho, sem descanso, mas ela nunca se queixava e tinha muita paciência connosco.
 Os quartos eram espaçosos, alguns com janelas, outros ligados por portas uns aos outros (a velha arquitetura portuguesa!), tetos altos forrados em tabuinhas. Neles eu imaginava as mais incríveis cenas enquanto me deleitava com a maciez dos colchões cheios com ‘camisas’ das espigas do milho. Havia duas salas importantes, uma armazenava em montes nas tábuas do chão batatas, melões, melancias, etc., sempre fresquinha. A outra era a sala de visitas, que praticamente não apareciam, mas se aparecessem lá estavam os móveis da praxe, a grande mesa com cadeirões, os aparadores pretos com serviços de porcelana e naprons, o relógio de pé badalando quando devia. Curiosamente, e nunca entendi  porque ali, uns estradinhos de ripas de madeira pendurados do teto alojavam os queijinhos de cabra ou de ovelha postos a ‘curar’. Ali? Talvez porque a sala mantinha as janelas fechadas e com cortinas, meia obscuridade, por isso não haveria moscas em cimas dos queijos.
 Ao lado da casa, uma área grande em nível bem mais baixo, fechada para a rua e para a quinta por muros, onde eram criados porcos e à noite refugiavam-se cabras e ovelhas. Para lá eram lançadas as frutas já não comestíveis ou em excesso, restos de legumes e cascas, tudo o mais que engordava os porcos grandes e brancos, turbulentos.
 Logo adiante, um comprido e alto casarão, de que a parte final com pouca luz servia para adega, fechada, porta aferrolhada, onde se perfilavam tonéis e barris. Chão de terra, com cheiro forte a vinho, resultado dos restinhos de copos que por lá eram jogados nas provas dos vinhos novos e, claro, na ‘abertura’ da água-pé, acompanhadas com chouriço na brasa. Todos estes cheiros ainda relembro.
 Na parte mais à entrada do casarão era o lagar, mais adiante a estrebaria, onde comiam nas suas manjedouras quatro bois, uma ou duas vacas, uma égua e dois jumentos. A parede lateral que dava para um vinhedo era muito alta, talvez mais de dez metros. Bem no alto, aberturas servindo de janelas, sem vidros, substituídos por algumas barras de ferro, numa das quais faziam o ninho um casal de milhafres. O curioso é que estes nunca atacaram as galinhas e pintos que por ali ciscavam, apesar de percebermos os seus voos mais longe nessa caçada.
 Depois do casarão, um imenso tanque quadrado, com um metro e tal de profundidade, armazenava a água das chuvas utilizada em regas. Para minha alegria hospedava dezenas de rãs que rompiam o ar com o seu coaxar constante. Não devo omitir que muitas vezes tentava atingi-las com pedras arremessadas pela minha fisga quando elas se expunham em cima das folhas de plantas aquáticas. Felizmente para elas, a minha pontaria era deplorável. Penso até que na realidade não queria acertar-lhes, só assustá-las, para ver o pinote que davam.
 Ainda falando dos animais, é muito importante informar que um dos burros, o Ginga, era ‘meu’, claro que meu por decisão minha. A égua era muito alta para mim e meio doidivanas, o outro burro era pequeno e feio, nunca o montava. Já o Ginga era um companheirão. Além de o montar no final da tarde, quando todos os animais eram levados à fonte na aldeia para saciarem a sede, indo eu no cortejo, cavalgando vaidoso o Ginga, tinha várias oportunidades de o montar em pequenas folgas do seu trabalho.
 Certa manhã (nunca o esquecerei!), estava na varanda, o portão para a rua aberto, quando eu vejo boquiaberto uma junta de bois a arrastar pelo chão o Ginga, hirto, de pertas para cima. Sim, isso mesmo, o meu amigão, o Ginga, estava morto, mortíssimo, percebi então. Não acreditava, na véspera, horas antes, tinha cavalgado nele. Foi o meu primeiro contacto com a morte, doloroso, inaceitável, inacreditável, injusto… como sempre o foi para mim aceitá-la, mesmo mais ao longo da vida. Mas eu era uma criança, ingénuo, como aceitar que me roubassem o meu amigo, o meu Ginga? Chorei muito, fiquei desconsolado, quis voltar para Lisboa, tinha-se desmoronado o teto do meu Shangri-lá.
 Eu conhecia perfeitamente toda a quinta, pois andava o dia inteiro de um lado para o outro acompanhado da minha cadela Lisboa. Por vezes carregava um farnel numa tosca mochila de pano e passava horas e horas a percorrer áreas fora da quinta, nas colinas lá ao longe com pinheirais aprazíveis. Depois de comer algumas fatias de pão com pedaços de queijinhos curados de cabra, bebendo depois água pelo meu cantil, deitava-me no chão, em algum amontoado de folhas ou de ervas rasteiras, usava como travesseiro a barriga de Lisboa, que, coitada, mal respirava para não me perturbar, e ficava a contemplar o jogo de nuvens ou o voo majestoso, bem lá no alto, de milhafres e águias. Ou o menos bonito e mais ruidoso dos corvos. Será que sobreviveram até hoje?
 Na quinta conhecia as mais saborosas árvores de fruta e as uvas mais apetitosas, de que dia após dia acompanhava o amadurecimento. Sem defensivos, sumarentas, comia-as com casca ou descascava-as com o meu canivete suíço de que muito me orgulhava.
 Quando o meu tio contratara aquela quinta para cultivá-la (percebi depois que uma parte do que cultivava era para o dono, em espécie ou produto, nuns casos um terço, noutros metade), a maior parte dos terrenos ainda não tinham sido cultivados. Coube ao tio António essa tarefa, que desempenhou com esforço e perseverança, por etapas, com uma ou duas parelhas de bois atrelados a um arado, devagar, pois tinha que despedaçarr na marreta algumas rochas, outras o arado levantava-as da terra, mais do fundo. Estas pedras eram posteriormente utilizadas na armação dos muros de pedra solta que desenhavam toda a quinta caprichosamente.
 Eu gostava de assistir ao lavrar, mais do que em áreas já anteriormente aradas, naquelas em que o lavrar era um verdadeiro desbravamento, um trabalho titânico, quase heroico, que espalhava pelo ar um cheiro/gosto forte e acre muito característico. É o cheiro da terra lavrada, conheço bem.
 Mas do que eu mais gostava era da eira na época da debulha. Para os que não sabem, uma eira é uma área de pouco mais de meio hectare (6 ou 7 mil metros quadrados), de preferência no alto de uma pequena elevação, onde vente razoavelmente. Para a armar, primeiro há que lavrar o terreno, de seguida passar com o rolo compressor para aplainar e compactar, depois regar com abundância. A seguir entra um rebanho de ovelhas que ficam horas andando à roda na terra molhada (esqueci de dizer que a eira é redonda, uma grande roda) para a compactar mais com os pequenos cascos das suas patinhas, de forma a que a terra não fique nem demasiado dura nem demasiado porosa. Tem a sua arte!
 Uns quantos garotos, os pastores das ovelhas, com umas varinhas e correndo por fora, obrigavam os animais a andar rápido ordenadamente em círculos. Eu ficava de cócoras (como via os garotos índios fazerem nos filmes de cowboys) num caminho mais alto que passava mais acima da eira e ficava a ver o rebanho que protestava com prolongados ‘més’. Visto assim de cima parecia uma cena de filme mudo, mais precisamente Trabalhadores a sair da Fábrica Lumière (de Louis Lumière), uma centena de operários a sair dos portões, a se empurrarem uns aos outros, imagens tremendo, como me parecia estarem as ovelhas, também se chocando umas com outras, certamente desorientadas por aquele passeio sem sentido.
 Enquanto se aprontava a eira, o trigo amadurecia e aloirava, altivo ficava na expetativa da ceifa. Chegada a hora, homens em mangas de camisa e barrete, mas principalmente mulheres vestidas de cores garridas, as mais novas, de preto por algum luto prolongado as mais velhas, todas de lenços cobrindo os cabelos, alinhavam-se na seara, e com as suas foices afiadas começavam a derrubar com golpes certeiros o trigo que ficava estendido no chão, a sua majestade de ouro ondulante chegava ao final.
 Logo a seguir, chiando pelos caminhos, possivelmente ladeados de silvas com amoras ainda verdes, pois as maduras os meninos e os pássaros já as teriam comido, chegavam ao local os carros de bois, e homens que com forquilhas apanhavam do solo o trigo e o jogavam no estrado dos carros de bois até formarem uma montanha vacilante. Os carros voltavam a chiar até à eira onde os mesmos homens desarmavam a montanha que ficava esparramada por toda a eira, quase com um metro de altura.
 Com a entrada do ‘trilho’ começava a debulha. A debulha é o ato de tirar o grão do trigo (ou outro cereal) das suas cápsulas naturais, o que é alcançado com o auxílio de um trilho, uma espécie de ‘jangada’ de tábuas sobre uns seis rolos grossos de madeira, estes com pregos grandes espetados e com cabeças enormes e salientes. Em cima deste trilho são colocadas pedras bastantes para ficar bem pesado, preparado para debulhar bem, ou seja, para as cabeças dos pregos soltarem o grão da sua espiga. Uma parelha de bois puxa este trilho que um abegão (o condutor de bois) vai conduzindo à roda da eira, horas e horas.
 Eu pedia ao abegão para me deixar ir em cima desse estrado, sentado num dos pedregulhos, à socapa, pois o meu tio proibir-me-ia se soubesse, por representar algum perigo. Sentado numa pedra ou deitado, o Sol a abraçar-me, eu entrava em transe a ouvir o canto-chão que o abegão entoava, para animar os bois ou, sei lá, a ele mesmo. Mais tarde, já não um menino mas gente, quando ouvia os cantos gregorianos recordava quase sempre este monótono e simples canto-chão que me deliciara.
 Além do mais, quando as cabeças dos pregos rasgavam os caules do trigo, este soltava uma seiva esverdeada (aliás saborosa) de cheiro muito agradável que eu aspirava com júbilo, enquanto os bois e o seu condutor continuavam nas suas infinitas voltas à eira. De quando em quando, o abegão parava os seus animais junto a uma cabana de ramos de árvores (para um eventual descanso) para beber, mas não água como seria aconselhável, dado o calor do sol escaldante, mas vinho. Sim, vinho tinto de um ‘almude’ (recipiente em latão em forma de bilha, que através de um triângulo aberto no alto do grosso gargalo marca a quantidade de vinho contida, já que o almude é uma antiga medida para líquidos com cerca de vinte litros). Ele erguia o recipiente pesado com presteza acima do seu rosto e deixava o precioso líquido escorregar pela goela abaixo. Um estalo gutural de satisfação, o passar da manga da camisa nos beiços e a volta à sua faina, com um olhar cúmplice para mim. Vim a saber que esse vinho era parte da sua jorna.
 Finalmente saía o trilho e entravam homens e mulheres com forquilhas a tirar a palha para as margens da eira, de forma a ficar apenas o grão e alguma palha. Com pás, os grãos eram jogados bem alto e aí o vento levava para longe a puínha que ainda restava do trigo, e este ficava pronto a ser ensacado. Uma batalha longa e árdua que aqueles guerreiros, armados apenas de forquilhas e pás, venciam, certo que apenas por uma estação, o milenar  arrancar à terra com muito trabalho o seu alimento.
  Passados alguns anos numa das minhas viagens de campista por acaso acampei na época da debulha num pinheiral. De manhã, ao dar uma volta ouvi um ruído pavoroso. Aproximei-me e lá estava a autora: uma grande debulhadora toda em aço, fumegando, ensurdecendo todos à sua volta. Fiquei revoltado, desarmei a minha tenda e fui para longe, para bem longe daquele sacrilégio
 Usufruí destas regalias dos oito aos catorze anos, idade em que podia ir até lá desacompanhado (outros tempos!). Terminou quando a minha tia se afastou do marido para ir viver com o filho, quando este se casou e foi viver em Portalegre. Na verdade ela odiava a quinta, a vida no campo, as fainas agrícolas e sentia a falta de com quem tagarelar.
 Todo o trabalho do tio António foi de certa forma mal compensado, pois o dono da terra pouco antes avisou-o de que precisava dela para um filho que ia casar e queria viver e trabalhar naquela quinta. Pudera, agora que ela estava toda ‘aparelhada’! O proprietário deu quatro anos para o tio António sair e nesse entretanto ele comprou um terreno de cultura (em Freiria) onde construiu uma casa e plantou um belo vinhedo.
 Acompanhei a formação do vinhedo e a construção da casa nos últimos dois anos que para lá fui. Ele levava-me (de carroça ou de bicicleta) para me mostrar com orgulho ‘a obra’ (como eu sentia que ele gostava de mim por, talvez, adivinhar o meu grande amor à terra e admiração pelo seu trabalho). Com curiosidade eu assistia ao tio António outra vez a despedrar e sulcar a terra, a armar moirões e esticar arames para a vinha se encostar, e finalmente a plantá-la ainda um nadinha. Depois ele continuou por mais dois anos a sua maravilhosa faina sem eu estar perto para poder apreciar. Felizmente viveu muitos anos e certamente no princípio de Outubro,  chamar os seus amigos para a ‘abertura’ da sua água-pé.
 Em Lisboa, nos primeiros tempos, eu pedia notícias de como ‘iam as coisas’ ao meu primo Luís. Até que um dia ele me falou que o pai tinha mudado para Freiria e abandonado Cabeda. Nesse dia chorei. Discretamente, fui-me estender em cima da minha cama e fiquei a recordar pedaço a pedaço aquela para mim maravilhosa quinta, como se a estivesse a sobrevoar de um avião, a voar baixinho, ou a ver um filme documentário. Lá estavam: a cadela Lisboa, o burro Ginga, os milhafres, o tanque e as rãs, a horta, até a vindima e o pisar da uva (ouvia nitidamente a galhofa daquelas raparigas a pisar as uvas com as saias arregaçadas), os campos de trigo louro a ondular salpicados de papoulas, a corrida das lebres e o voo precipitado das perdizes a fugir, o abegão a cantar, tudo, tudo.
 Depois imaginei o meu tio no último dia a visitar as terras que regara com o seu suor e a despedir-se com saudade antecipada de cada árvore, de cada vinha, da horta, das leiras com o restolho do trigo, de tanta coisa que ele plantara, cultivara, cuidara. Com raiva? Com amargura? Sei lá. Só sei que eu, nesse dia, estava ao seu lado, sim, com saudades de outros dias…

Uma neta dele e o marido, citadinos, melhor dito, lisboetas, curso superior, respeitados profissionais liberais, quando se aposentaram foram para lá viver.
 Quem sabe se para alegria do avô que nessa altura, certamente, já estaria a lavrar com vigor as nuvens no infinito céu.
DeMOURA
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